Os imóveis tradicionais do Bairro Prado e região podem estar com os dias contados. A maioria das construções antigas não é tombada pelo patrimônio histórico e nas ruas já é possível perceber o paradoxo arquitetônico no contraste das casas antigas com as modernas edificações.
O Bairro Prado foi fundado praticamente junto com a capital mineira, em meados de 1897. Todo o entorno de Bairros tradicionais – Calafate, Gutierrez, Barroca e Gameleira, ainda guardam traços de origem da fundação de Belo Horizonte e da história de pessoas que acompanharam o crescimento da cidade. As casas, prédios e casarões com aspecto colonial resgatam a história e conservam memórias de tempos mais tranqüilos.
Em inúmeras tentativas nossa reportagem tentou contato com a Fundação de Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte, órgão responsável por avaliar e conferir tombamentos. Também tentamos um parecer da Assessoria de Comunicação da Prefeitura, mas nenhum dos dois setores informou dados oficiais sobre imóveis tombados na região e não confirmaram informações sobre o processo de tombamento, até o fechamento desta edição.
Em outra ligação, sem identificar que o contato estava sendo feito pela imprensa, um atendente da Fundação de Cultura informou que vários fatores podem levar ao tombamento de um imóvel. O tempo da construção, a notoriedade do morador, traços arquitetônicos e acabamentos raros, entre outros aspectos, são levados em conta no processo de proteção. Ainda segundo o atendente, os imóveis determinados como patrimônio histórico e cultural podem – e devem – ser reformados, de acordo com parâmetros de conservação estabelecidos pela fundação. A propriedade pode ser vendida, alugada e inclusive valorizar, no decorrer dos anos, por possuir riqueza histórica em bom estado de conservação, finalizou o funcionário da fundação.
As construções históricas do Prado e adjacências têm convivido com a transformação da localidade em referência de vestuário e moda, pois confecções de roupas e lojas de grife se estabeleceram na região. Não são em edificações de aspectos antigos que essas empresas se instalam. As janelas e portas raras, molduras de gesso e tantos outros arremates valiosos dão lugar a longas vitrines de vidro bem iluminadas e a acabamentos que remetem ao luxo e inovação. Nessa tendência de modernização é possível que futuros proprietários abram mão de construções históricas, carregadas de significado, para dar lugar a uma edificação que se enquadre nos padrões atuais.
Levando em conta o processo de verticalização das grandes cidades e o lucro comercial, que são os grandes vilões das riquezas históricas, alguns moradores se sentem preocupados. O Presidente da SOS Associação de Moradores e Comerciantes do Bairro Prado, Guilherme Neves, declarou que já houve muita resistência por parte dos moradores quanto à proteção histórica dos imóveis. “Antes, por falta de conhecimento, as pessoas acreditavam que um imóvel tombado pelo patrimônio histórico não podia ser vendido, alugado ou restaurado”. O representante do bairro contou que hoje a situação é um pouco diferente, pois a população local já recebeu esclarecimentos sobre a proteção histórica de seus imóveis. “Uma vez, representantes da Fundação de Cultura estiveram aqui para esclarecer”, disse Guilherme que não soube informar se já houve efetivação de tombamentos na região.
Gláucia Mara, também moradora da região e líder comunitária, mora em um prédio residencial que existe há 65 anos e sabe que muitas características da estrutura original já se perderam com o tempo. A estrutura onde mora não é protegida pelo patrimônio histórico e ela diz que a maioria das construções antigas da região está na mesma situação. “Eu não tenho conhecimento de nenhum prédio que esteja sob proteção”, ressalta Glaucia. Ela ainda contou que a maior parte dos prédios e casas antigas estão sendo vendidos para imobiliárias que desconsideram a edificação já existente e constroem algo mais moderno no lugar.
Higino da Fonseca, 87, que reside há cerca de 50 anos em um prédio no Bairro Calafate, contou que não tem nada a reclamar. “Gosto muito de morar aqui porque a rua é boa e a vizinhança também”. Ele observa que a Rua Viamão é pacata e silenciosa porque nela não passam ônibus. Higino disse ainda que apesar de seu prédio não aparentar ser histórico por causa da fachada simples, seu apartamento conserva características antigas, inexistentes em lançamentos, como por exemplo, as dimensões dos quartos que são grandes. “Eu não gostaria de me mudar daqui”, mas disse que também entende que seja necessário acabar com algumas casas antigas para construir prédios, gerando mais moradias. “É o processo de verticalização, eu entendo!”, finaliza o morador.
Os interessados em proteger seus imóveis devem procurar a Fundação de Cultura para solicitar uma avaliação técnica e dar início ao processo de tombamento histórico e cultural.
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